Palavrório

Poesia, miçangas, nesgas, letras, prosaicos, arroubos e outras inexplicações.

Palavrório

Poesia, miçangas, nesgas, letras, prosaicos, arroubos e outras inexplicações.
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Arquivo de: Outubro 2007

28.10.07

Não sou poeta ainda.

Rasguei o chão a dentadas
e achei línguas de fábulas
extintas.
Colhi alarmes falsos
Entre as pedras afogadas
E no jorro de erros eternos
Me banhei semi-vivo.
Mas...

Não sou poeta ainda.

Ergui a crista dos olhos
Insolentes ao sol fatídico.
Colecionei suores em madrugadas lunares,
Varei os ares férreos
De masmorras invisíveis
À procura de quimeras e miragens,
Mas...

Não sou poeta ainda.

Não sou poeta ainda.
Não sou poeta ainda!
Sei, por causa desses dentes inanes.
Sei, por conta dessa língua exilada.
Sei, por essas pedras exaustas.
Sei, por esse jorro ensinado.
Sei.

Não sou poeta ainda.

Amei tentáculos, comícios
Esperas atônitas
Avenidas, vulvas e invernos.
Verti mil lágrimas anônimas
E calei em mim
A sombra das dúvidas, das dúvidas.
É...

Não sou poeta ainda.

Tingi a raiva com a seiva do absurdo.
Armei a tenda incendiada
Naquele cume nenhum
E de lá gritei aos quatro vértices
Do nada, que nada é
Assim tão lúcido que não caiba
Afã.
E...

Não sou poeta ainda.
Sei por culpa dos tentáculos limites.
Sei, por obra das esperas goradas.
Sei, por essas raivas ingentes.
Sei por esses gritos de vidro.
Sei.

Não sou poeta ainda!
Tracei no espaço uma parábola bíblica
E corri o mundo atrás do ardor.
Acorrentei o rumo dos meus medos
E escolhi à dedo o múltiplo
Incomum à todos nós e vi:

Não sou poeta ainda.

Não!
Sou poeta ainda!

Sei por causa das palavras virgens!
Sei por conta das vertigens!
Sei por obra da brancura
Sei por essa dentição doída!
Sei por essas fábulas puídas!
Sei por essas pedras vaporosas!
Esses erros imanentes!
Esses vivos avidíssimos!
Esses olhos à postos!
Tantas coisas inauditas
Que não sou.
Poeta?
- Ainda...

  • criado por  mauroaguiar criado por mauroaguiar
  • Postado em 19:51:35

09.10.07

Achado

Um achado
Não se acha assim
De bate pronto
Ali do lado.
Tem de ser escavado
Ponto à ponto, muito à fundo
Até ao estado de um encontro
Pra lá de desencontrado
Com o germe de outro mundo.
  • criado por  mauroaguiar criado por mauroaguiar
  • Postado em 12:21:57

07.10.07

Receita de Canção

Há que saber extrair de dentro da voz que fala a voz que canta. Esperar madurar o sotaque para que desça um visgo solene por entre as frinchas da frase. Frase já não tão recortada, menos dentadura e mais margem. Depois de escorrer todo o visgo dentro do pensamento, impõe-se a missão de esticar os vocativos até a conformação de aboio e prontamente envernizar os meios vernáculos. Quando a gagueira já não for um istmo mas um ritmo; quando o tique, o esgar já não for uma mastigação mas um alento; quando o sussurro não for um vento morno mas finalmente um sumo, aí sim teremos pronto o extrato de vozeio, pronto para o devaneio de canários vários e similares de mercado. Mas...
Havemos antes que extrair da voz que canta a voz que fala. Obstruir o ralo dessa nuvem invertebrada para que não preencha o bairro com um uivo informe. Pinga-pingar a mina d´água que aos borbotões inundaria o casario da ciência. É, é uma missão difícil essa de arregimentar cacoetes para entremeá-los nos melismas insossos da inocência. Depois de interrompido o fluxo, ao mestre de obras cabe destinar à cada parede mal caiada o seu esguicho exato, sem pé nem cabeça, mas completamente dentro da argamassa da fala arcana.
Cumprido esse singelo rito, estaremos diante do último desafio:
Fazer com que o fio da fala flua sem freio dentro do finito como se fora infinito, enfim, fazer com que o meio justifique os fins, o que já é muito.
  • criado por  mauroaguiar criado por mauroaguiar
  • Postado em 02:57:20

03.10.07

Palavra Prima

Palavra prima. Por que primeira? Talvez porque dentro de nossas gargantas ancestrais, seja quase um rugido, um grito, um urro. Palavra ainda não lapidada pelas tintas do signo, pelo verniz da imagem. Ou talvez uma parenta ,quem sabe? Palavra íntima, filha do assobio. Parole, Parolar, Parolírica.
Uma palavra só, solitária, aquela que soa única, ou alguma palavra forte, cheia de sentidos que nos aconselha sussurrando: “Penetra surdamente no reino da palavra e descobre lá que todas as palavras em si são promessas de um mundo. A palavra cantada presenteia-nos incessantemente com esses mundos paralelos. Que nascem da crua palavra.
Que quer dizer Tudo.
Como cabe o incomensurável dentro do vocábulo? Como diz o impossível? Parece-me que só o som revela as contrafaces desse silêncio afeito ao infinito, dessa palavra Anterior ao entendimento, palavra cantada, em rito, em festa em extase que arrasta a alma ao outro quadrante, palavra úmida, irrigando o coração. Palavra ilógica, litúrgica.
Palavra viva . Palavra que nasce, se espreguiça, que sonha, devaneia, palavra aberta, que dança, que salta de som em som. Palavreado. Parente próxima da fala.
Palavra com temperatura, palavra que aquece as cordas vocais, que enche nossos pulmões, que enche a sala, o pátio e o vale de ecos encantados. Palavra que volta também à faca fria. Que corta na própria carne.
Que se produz Muda. Feita na sombra, feita no ermo por entidades (letristas), esses espantalhos de mil bocas. Esses cavalos de canários...
Feita de luz mais que de vento, palavra com luz própria, sol, lavralume, vagaletra, clareando destinos. E que no entanto se faz Palavra dócil Palavra d'água pra qualquer moldura, sem arestas à mostra, palavra de metal líquido. Ou não será Mercúrio esse deus sonso e ladrão que das tripas fez a primeira lira?
Palavra humilde, Que se acomoda em balde, em verso, em mágoa
Qualquer feição de se manter palavra.

Palavra minha
Matéria, minha criatura, palavra esculpida? Cuspida? Nascida de qual costela essa serpente Que me conduz
Mudo
E que me escreve desatento, palavra farol, candeeiro, palavra guia de cego, aquela que mostra o por onde. E salta aos olhos.
Talvez, à noite,
Quase-palavra que um de nós murmura
Que ela mistura as letras que eu invento
Outras pronúncias do prazer, palavra. Essa palavra-gemido que roça o estado de música é a mãe de todas as canções. Anúncios, reclames recorrentes do gozo.
Palavra boa
Não de fazer literatura, palavra .Não poesia ou prosa, caligráficas estátuas de sal. Ou essas palavras desidratadas dos livros, que só vivem se as banhamos da luz dos nossos olhos.
Mas de habitar... Palavras que moram, que se demoram no tempo ,que tomam banho, que se arrumam para sair à noite, e viram quase-palavras na madrugada...
...Fundo
O coração do pensamento, palavra. Palavras-coronárias. Dentro do cérebro, onde se forjam as idéias, lá, a canção que se canta entrelaça as linhas de força e vai se conformando em novelo, em núcleo, em centro disperso, em versonho, e começa a pulsar um outro coração na boca que nos faz mais humanos.
Dei minha palavra, e a palavra dada não se olha os entres.
Até.
  • criado por  mauroaguiar criado por mauroaguiar
  • Postado em 12:57:05

02.10.07

Palimpsesto

Tornei-me tudo
Quando nasceu de mim
Um vasto mundo.
Hoje eu me gasto infindo
E até me basto. Contudo
No fim do meu sem-fim
Alguém anda mentindo à rodo:

Ou tornei-me tudo
Que nasceu de mim e nisso insisto,
( cri-me Cristo?!)
Ou o mundo em mim
Tornou-se um palimpsesto engodo
E eu nem de mim me resto.
  • criado por  mauroaguiar criado por mauroaguiar
  • Postado em 17:57:38