03.10.07
Palavra Prima
Palavra prima. Por que primeira? Talvez porque dentro de nossas gargantas ancestrais, seja quase um rugido, um grito, um urro. Palavra ainda não lapidada pelas tintas do signo, pelo verniz da imagem. Ou talvez uma parenta ,quem sabe? Palavra íntima, filha do assobio. Parole, Parolar, Parolírica.
Uma palavra só, solitária, aquela que soa única, ou alguma palavra forte, cheia de sentidos que nos aconselha sussurrando: “Penetra surdamente no reino da palavra e descobre lá que todas as palavras em si são promessas de um mundo. A palavra cantada presenteia-nos incessantemente com esses mundos paralelos. Que nascem da crua palavra.
Que quer dizer Tudo.
Como cabe o incomensurável dentro do vocábulo? Como diz o impossível? Parece-me que só o som revela as contrafaces desse silêncio afeito ao infinito, dessa palavra Anterior ao entendimento, palavra cantada, em rito, em festa em extase que arrasta a alma ao outro quadrante, palavra úmida, irrigando o coração. Palavra ilógica, litúrgica.
Palavra viva . Palavra que nasce, se espreguiça, que sonha, devaneia, palavra aberta, que dança, que salta de som em som. Palavreado. Parente próxima da fala.
Palavra com temperatura, palavra que aquece as cordas vocais, que enche nossos pulmões, que enche a sala, o pátio e o vale de ecos encantados. Palavra que volta também à faca fria. Que corta na própria carne.
Que se produz Muda. Feita na sombra, feita no ermo por entidades (letristas), esses espantalhos de mil bocas. Esses cavalos de canários...
Feita de luz mais que de vento, palavra com luz própria, sol, lavralume, vagaletra, clareando destinos. E que no entanto se faz Palavra dócil Palavra d'água pra qualquer moldura, sem arestas à mostra, palavra de metal líquido. Ou não será Mercúrio esse deus sonso e ladrão que das tripas fez a primeira lira?
Palavra humilde, Que se acomoda em balde, em verso, em mágoa
Qualquer feição de se manter palavra.
Palavra minha
Matéria, minha criatura, palavra esculpida? Cuspida? Nascida de qual costela essa serpente Que me conduz
Mudo
E que me escreve desatento, palavra farol, candeeiro, palavra guia de cego, aquela que mostra o por onde. E salta aos olhos.
Talvez, à noite,
Quase-palavra que um de nós murmura
Que ela mistura as letras que eu invento
Outras pronúncias do prazer, palavra. Essa palavra-gemido que roça o estado de música é a mãe de todas as canções. Anúncios, reclames recorrentes do gozo.
Palavra boa
Não de fazer literatura, palavra .Não poesia ou prosa, caligráficas estátuas de sal. Ou essas palavras desidratadas dos livros, que só vivem se as banhamos da luz dos nossos olhos.
Mas de habitar... Palavras que moram, que se demoram no tempo ,que tomam banho, que se arrumam para sair à noite, e viram quase-palavras na madrugada...
...Fundo
O coração do pensamento, palavra. Palavras-coronárias. Dentro do cérebro, onde se forjam as idéias, lá, a canção que se canta entrelaça as linhas de força e vai se conformando em novelo, em núcleo, em centro disperso, em versonho, e começa a pulsar um outro coração na boca que nos faz mais humanos.
Dei minha palavra, e a palavra dada não se olha os entres.
Até.

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criado por mauroaguiar
11:57:05