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Rasguei o chão a dentadas
e achei línguas de fábulas
extintas.
Colhi alarmes falsos
Entre as pedras afogadas
E no jorro de erros eternos
Me banhei semi-vivo.
Mas...
Não sou poeta ainda.
Ergui a crista dos olhos
Insolentes ao sol fatídico.
Colecionei suores em madrugadas lunares,
Varei os ares férreos
De masmorras invisíveis
À procura de quimeras e miragens,
Mas...
Não sou poeta ainda.
Não sou poeta ainda.
Não sou poeta ainda!
Sei, por causa desses dentes inanes.
Sei, por conta dessa língua exilada.
Sei, por essas pedras exaustas.
Sei, por esse jorro ensinado.
Sei.
Não sou poeta ainda.
Amei tentáculos, comícios
Esperas atônitas
Avenidas, vulvas e invernos.
Verti mil lágrimas anônimas
E calei em mim
A sombra das dúvidas, das dúvidas.
É...
Não sou poeta ainda.
Tingi a raiva com a seiva do absurdo.
Armei a tenda incendiada
Naquele cume nenhum
E de lá gritei aos quatro vértices
Do nada, que nada é
Assim tão lúcido que não caiba
Afã.
E...
Não sou poeta ainda.
Sei por culpa dos tentáculos limites.
Sei, por obra das esperas goradas.
Sei, por essas raivas ingentes.
Sei por esses gritos de vidro.
Sei.
Não sou poeta ainda!
Tracei no espaço uma parábola bíblica
E corri o mundo atrás do ardor.
Acorrentei o rumo dos meus medos
E escolhi à dedo o múltiplo
Incomum à todos nós e vi:
Não sou poeta ainda.
Não!
Sou poeta ainda!
Sei por causa das palavras virgens!
Sei por conta das vertigens!
Sei por obra da brancura
Sei por essa dentição doída!
Sei por essas fábulas puídas!
Sei por essas pedras vaporosas!
Esses erros imanentes!
Esses vivos avidíssimos!
Esses olhos à postos!
Tantas coisas inauditas
Que não sou.
Poeta?
- Ainda...