07.10.07
Receita de Canção
Há que saber extrair de dentro da voz que fala a voz que canta. Esperar madurar o sotaque para que desça um visgo solene por entre as frinchas da frase. Frase já não tão recortada, menos dentadura e mais margem. Depois de escorrer todo o visgo dentro do pensamento, impõe-se a missão de esticar os vocativos até a conformação de aboio e prontamente envernizar os meios vernáculos. Quando a gagueira já não for um istmo mas um ritmo; quando o tique, o esgar já não for uma mastigação mas um alento; quando o sussurro não for um vento morno mas finalmente um sumo, aí sim teremos pronto o extrato de vozeio, pronto para o devaneio de canários vários e similares de mercado. Mas...
Havemos antes que extrair da voz que canta a voz que fala. Obstruir o ralo dessa nuvem invertebrada para que não preencha o bairro com um uivo informe. Pinga-pingar a mina d´água que aos borbotões inundaria o casario da ciência. É, é uma missão difícil essa de arregimentar cacoetes para entremeá-los nos melismas insossos da inocência. Depois de interrompido o fluxo, ao mestre de obras cabe destinar à cada parede mal caiada o seu esguicho exato, sem pé nem cabeça, mas completamente dentro da argamassa da fala arcana.
Cumprido esse singelo rito, estaremos diante do último desafio:
Fazer com que o fio da fala flua sem freio dentro do finito como se fora infinito, enfim, fazer com que o meio justifique os fins, o que já é muito.
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criado por mauroaguiar
01:57:20